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Os bons realizadores criam uma atmosfera

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.02.16

É o primeiro filme que vejo de James Gray. E vi-o por acaso num dos canais da Fox. Two Lovers traduzido para Duplo Amor.

Este é um filme que não consigo classificar, que escapa a qualquer classificação. É um encontro feliz entre um bom realizador e bons actores.

Aqui não é o argumento que sobressai, embora seja um bom argumento. Alguns dias na vida de pessoas simples. As suas alegrias e as suas tragédias. Aqui o que sobressai é a realização, que consegue criar uma atmosfera, a sua atmosfera.

Alguém transporta um saco de lavandaria, vemos esse saco baloiçar enquanto acompanhamos de muito perto esse alguém. A imagem distancia-se e vemo-lo de longe. Está parado num promontório de uma baía. Percebemos que se vai atirar antes de ver a sua queda na água. O filme começa assim, um mergulho no escuro.

Joaquin Phoenix é Leonard, veste-lhe a pele, vive o seu quotidiano. O amor dos pais já não é suficiente. Rejeitado há dois anos pela noiva, mantém a sua fotografia no quarto. O trabalho na lavandaria do pai também não o satisfaz. Mas gosta dos pais e não os quer magoar.

Leonard conhece Sandra no jantar familiar, na mesma noite da sua tentativa de suicídio. Mostra-lhe as suas fotografias - o seu sonho é ser fotógrafo - e aceita o convite da família Cohen para fotografar o Bar Mitzvah do filho mais novo. O namoro com Sandra irá desenvolver-se como um fio protector que o mantém a salvo até ao último momento. 

Nas vidas simples de pessoas simples também existem dramas e tragédias. E encontros fatídicos. E a atracção pelo abismo. No caso de Leonard, o encontro com Michelle. Leonard passa a gravitar à sua volta. Ainda resiste a essa paixão mas, como dirá à mãe, quase num soluço: "Tenho de ir, mãe."

 

O cinema respira neste filme. Na aproximação e afastamento da câmara, no ritmo, na direcção de actores, na atmosfera que cria, e no seu minimalismo. Quase lembra Ingmar Bergman.

 

 

 

 

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publicado às 14:40

2016, um ano com muitos filmes para ver

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 17.01.16

Um dia escandalizei alguns viajantes quando referi gostar mais de ver filmes em casa do que nas salas de cinema. Claro que isso implica ver os filmes com um ano ou dois de atraso. Mas será que este ano vou resistir a ver The Martian, Hail, Caesar!, Bridge of Spies, 45 Years, Joy, Trumbo?

Pela lista de filmes que espero ver este ano, verifico que continuo a valorizar o guião (Drew Goddard e Andy Weir, os irmãos Coen) e a realização (Ridley Scott, Steven Spielberg). Assim como as homenagens ao cinema (Hail, Caesar!, Trumbo) e ao trabalho dos actores na pele de personagens (Charlotte Rampling, Jennifer Lawrence).

 

Este rio sem regresso revela a vida através do cinema. Agora falta revelar o cinema através dos que o vivem e amam. Realizadores, produtores, actores, edição, fotografia, cenografia, técnicos de som, efeitos especiais, todos contribuem para o resultado final.

Distingui entre vários tipos de cinema: de autor (intimista ou narcísico); próximo do documentário (biografia ou ficção); de ideias (direitos humanos, protecção dos animais e/ou ambiental); de acção (com muitos efeitos especiais); drama; comédia; animação. Pode situar-se no passado (histórico, de época); no presente ou no futuro (ficção científica). Pode utilizar a natureza como metáfora (The Petrified Forest, High Sierra), ou a cidade (The Asphalt Jungle) ou comparar as duas (On Dangerous Ground).

Também valorizei os realizadores, pelo domínio de uma técnica complexa, pela sua criatividade e pelo seu respeito pelo espectador. Assim como os actores, pela forma como vestem a pela da personagem.

 

Como qualquer outra forma de arte o cinema vai-se renovando. Em arte a inovação é fundamental. O espectador quer ser surpreendido. No entanto, a inovação tem sido sobretudo tecnológica. Falta uma inovação cultural. Libertar-se de caminhos percorridos, de clichês (em que o espectador antecipa as cenas seguintes), de piscar de olhos aos diversos fãs (perseguições no meio da rua, pessoas penduradas em precipícios, corridas de carros, explosões, bombas desligadas no último segundo, etc.).

Hoje é a ficção científica que destaco, um filão ainda com muito para dar. 

 

 

 

 

 

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publicado às 11:36

Puro cinema: as origens

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.01.14

No tempo da idade impressionável vi na televisão a preto e branco um programa sobre o cinema mudo, apresentado por um entusiástico Lopes Ribeiro acompanhado por um reservado pianista que era desafiado, no final, a dizer Boa nôte aos telespectadores. A grande maioria dos filmes apresentados eram herdeiros directos do burlesco, das comédias e das aventuras. Apreciei sobretudo Charlie Chaplin, um génio neste género além de um poeta da vida real, e Buster Keaton, muito inteligente pelo contraste entre a sua expressão facial hermética e as aventuras em que se envolvia.

Entretanto percebi, em vários documentários sobre cinema e aqui destaco o de Scorcese, que houve um cinema mudo experimental e ousado, muito inteligente e inovador, que ainda hoje podemos considerar como a base da linguagem do cinema, da técnica do cinema, da poesia do cinema.

 

É esta base que defino por "puro cinema". Um exemplo muito simples mas extremamente complexo, The Crowd (1928) de King Vidor:

 

 
 
 
 
King Vidor apresenta-nos Nova Iorque, primeiro em belíssimos planos, a seguir desce às ruas, aos carros, às pessoas, para de novo nos estontear com planos de prédios altíssimos a recortar o céu, para de novo subir por um prédio acima como se voássemos, até entrar por uma dessas centenas de janelas iguais e de novo nos perdermos em centenas de secretárias iguais onde pessoas iguais trabalham, até se deter na personagem que vamos acompanhar no filme.
Ficamos, nestes minutos de filme, a conhecer a cidade, o seu perfil inconfundível, o seu modernismo, a sua vida frenética, e a massificação do trabalho. Sem palavras nem descrições.
A música acompanha os planos e dá-lhes vida, como se fossem uma linguagem única e completa. Atrevo-me a dizer que as melhores cenas em cinema são as que unem filmagem e música. Essa magia vem das suas origens como nova linguagem, isto é, o que redutoramente consideramos como linguagem visual já é, a meu ver, visual e sonora mesmo antes da palavra.
 
Reparem agora em duas cenas de filmes de dois realizadores, Woody Allen e Billy Wilder, e facilmente perceberão que beberam na fonte, foram às origens do cinema, e quem sabe directamente a King Vidor...
 
Manhatan, de Woody Allen:
 
 
 
 
 
 
E The Apartment de Billy Wilder:
 
 
 
 
 
 
 
 

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publicado às 20:22

As minhas heroínas: Joanne Woodward, a mulher misteriosa

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 01.09.13

Depois dos meus heróis, Fredrich March, Robert Preston e o esboço para William Holden, faltavam as minhas heroínas. As actrizes-personagens que me fascinaram. 

Para começar, aqui vai Joanne Woodward, a mulher misteriosa. Misteriosa não no sentido de esconder um segredo ou de ser perita em jogos de sedução mas porque, sem se aperceber sequer, guarda em si imensas possibilidades: inteligência, paixões, afectos, sonhos.

Aqui a navegar neste rio estão dois filmes: The Long Hot Summer e Rachel, Rachel...

 

 

 Joanne Woodward é uma actriz que absorve e transmite a complexidade das personagens, como neste desafio, as três máscaras de Eve, fabulosa personagem e impressionante interpretação.

 

 

A sua voz altera-se do aveludado ao acutilante. Dir-se-ia da sua firmeza na postura e nos gestos que se trata de teimosia ou rigidez, mas em Rachel Rachel vemos a maior vulnerabilidade, a solidão e a depressão de uma professora que vive com a mãe numa pequena cidade do interior. Uma verdadeira obra-prima de Paul Newman, elaborada com a simplicidade só conseguida por uma grande sensibilidade.

 

Joanne Woodward e Paul Newman aparecem inseparáveis neste rio. Paul Newman filmou-a como mais ninguém, nesses anos em que o cinema parecia experimental, livre, solto, com a frescura de todos os inícios. São talvez dos poucos actores/realizador que escapam ao padrão cultural da época. Os seus filmes não nos surgem datados, surgem-nos surpreendentemente actuais. Digamos que acompanham as grandes mudanças culturais da época: as inseguranças, as fragilidades, os falhanços, os desencantos, os divórcios. A linguagem é a da realidade. Mas a perspectiva dessa realidade é poética, sensível, compreensiva. O olhar é o olhar de um adulto que enfrenta os desafios. Como no filme, Winning (1969) que nos revela a maturidade de uma época que é referida como irresponsável e de excessos mas que foi talvez a mais verdadeira e corajosa a olhar-se no espelho.

 

 

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publicado às 01:16

A vida, através dos filmes, a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.13

Este rio sem regresso já trouxe muitos filmes consigo mas é da vida que trata. A vida é que sobressai em tantos filmes...

Já o disse aqui que no cinema prefiro o que é verosímil, próximo da realidade. A fantasia delirante não me atrai, embora lhe possa reconhecer valor artístico e cinematográfico. É a realidade que me seduz, a vida, a experiência, as emoções, os sentimentos, um percurso, um caminho, as consequências de cada decisão e de cada escolha, os imponderáveis, as surpresas, os encontros e desencontros, as expectativas.

 

Alguns filmes trazem-nos a vida lá dentro, nas personagens sobretudo, na forma como encaram as situações, como se adaptam ou  modificam as suas circunstâncias, por vezes adversas, como enfrentam os desafios. Digamos que há filmes inspiradores. Tal como os livros, só que com vozes lá dentro, os sons e os silêncios, os risos e as lágrimas, e por vezes os lugares, as árvores, as cidades, as atmosferas. É essa a possibilidade do cinema que destaco e registo na alma, a densidade de uma atmosfera. 

Para tudo isto acontecer - e tantas vezes é a sorte de felizes encontros -, entra um grupo de pessoas, o guionista, o realizador, o produtor, o director de fotografia, os actores, o compositor, e sabe-se lá mais que influências, que conversas, que trocas de ideias, cada um a colocar um pouco de si próprio no trabalho final. 

Mas é ainda ao realizador e ao seu olhar único sobre uma ideia, um guião, que podemos atribuir a atmosfera única de cada filme, é esta a minha convicção. O seu olhar prevalece, mesmo que trabalhe em equipa como parece ser a tendência actual. Já lá vão os tempos de realizadores autocráticos como o Hitchcock ou maníacos como Orson Welles. E tantos outros génios do Cinema.

 

Já aqui fiz um dia um apanhado das décadas de Cinema a navegar neste rio. Hoje deixo aqui uma actualização, não apenas por décadas de Cinema mas também pelos realizadores mais representados:

 

A 1ª década de 2000 continua a mais representada com 37 filmes. Além dos referidos na altura, gostaria de destacar que, destes apresentados mais recentemente, o tema central é a violência. A sua natureza original na própria família e cultura de grupo, no incómodo e angustiante O laço Branco. A violência silenciada e aceite na reviravolta política da África do Sul em Disgrace. Uma outra forma de violência, a indiferença, mais grupal e das organizações do que a individual, em Babel. Indiferença, distância emocional e frieza nas empresas actuais e na forma como se descartam de recursos humanos em Nas Nuvens. A violência da guerra, neste caso a do Iraque, mas pode aplicar-se a todas as guerras, em Jogo Limpo (Fair Game), Jogo de Peões (Lions for Lambs), Combate pela Verdade (Green Zone). A violência e o caos generalizado numa projecção num futuro não muito distante em Children of Men.

Para nos consolar de tanta violência, só mesmo o humor de Woody Allen em A Maldição do Escorpião Jade, Vais Conhecer o Homem dos Teus Sonhos e Tudo Pode Dar Certo (Whatever Works).

De destacar ainda a mudança de perspectiva de um homem de meia idade: um, sobre o balanço da sua vida em As Confissões de Schmidt, o outro, o desafio que é lidar com a genica de um grupo de senhoras idosas, em Pranzo di Ferragosto.

 

A década seguinte mais representada é a dos anos 50 com 29 filmes. Além dos já aqui referidos, estes são todos magníficos: mais um William Wyler, Desperate Hours, mais um Anthony Mann, The Tin Star, mais um Douglas Sirk, Written in the Wind, um Billy Wilder, Sunset Boulevard, e um Robert Wise, Executive Suite.

 

A seguir, com 21 filmes, a década de 90, com mais este Jerry McGuire, e com 17 filmes, a década de 80, com mais estes Finnegan e O Turista Acidental.

 

A década de 40 não está mal representada apesar de tudo. São 13 filmes no total, acrescentados mais um Hitchcock, Rebecca, e um King Vidor, The Fontainhead.

 

As décadas menos representadas mantêm-se a de 60, com 9 filmes, a de 70 com 7, e a de 30 com 5, já apresentados na altura.

 

Quanto a realizadores, os mais representados e referidos são: John Huston com 6 filmes e referências a filmes, Steven Spielberg com 5, Frank Capra e Woody Allen com 4, William Wyler e Alfred Hitchcock com 3, John Ford, Joseph Mankiewicz, Elia KazanDouglas Sirk, Anthony Mann, Ingmar Bergman e Robert Wise com 2.

 

Estes são os grandes, entre outros, realizadores, numa época em que a realização era uma arte original, a desbravar caminhos, a experimentar planos e sombras, a adaptar a narrativa à linguagem própria do cinema, e a  escavar mais fundo na alma humana, no seu lado luminoso e no seu lado mais negro.

Hoje o Cinema tem outros desafios, pode escolher a maior simplicidade e naturalidade ou a maior complexidade e artificialidade, pode jogar, simular, cortar e colar, num ritmo muito mais veloz e adaptado ao tempo actual, sincopado e ansioso, por vezes ansiógeno.

 

Mas estes realizadores, entre outros, são muito mais do que pioneiros numa arte e numa linguagem única, imagem, movimento e som. Criaram uma atmosfera única, um olhar completamente novo, a frescura de todos os inícios e descobertas.

 

Para animar os Navegantes deste rio, e como síntese de homenagem a todos os realizadores que aqui navegam também, aqui fica uma cena de Manhattan com um dos pares que melhor funcionaram nos diálogos da comédia woodiana. Manhattan, como já repararam, é um dos meus filmes preferidos. Uma boa navegação... e não se deixem desviar por nevoeiros...

 

 

 

 

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publicado às 23:16

Valores humanos fundamentais: a autonomia

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 30.12.12

O último valor humano fundamental desta série que aqui coloco a navegar neste rio, nesta época de reflexão, é a autonomia. O primeiro foi a liberdade. Mas da liberdade à autonomia tivemos de passar pelos outros valores que a formam: responsabilidade e bondade, ou simples empatia, respeito pelo próximo.

No fundo, autonomia é próprio da maturidade do adulto, que já aqui colocámos a navegar. A autonomia é a resposta da maturidade, é a atitude da responsabilidade. Não depende de pressões ou orientações de outros, depende apenas da consciência do próprio. O adulto autónomo põe os valores da vida em primeiro lugar e só depois considera as outras variáveis.

 

A autonomia é esse patamar, por isso é que existe uma diferença entre liberdade e autonomia: a liberdade é dada ou conquistada, a autonomia é aprendida e ensaiada pelo próprio. Esse ensaio é a fase da rebeldia, a adolescência.

Neste The Little Foxes, igualmente dos anos 40, e que já está a navegar neste rio a propósito da linguagem do poder, vemos como uma rapariguinha aprende com o pai a atitude correcta do respeito pelos outros e ensaia o caminho da autonomia. Vemos a sua coragem ao enfrentar a mãe e o seu ascendente manipulador. A cena final das escadas, a mãe que olha para baixo, para a filha, e esta que olha para cima, para a mãe, é simplesmente extraordinária. É um William Wyler, não esquecer.

Por momentos pensamos que a rapariguinha vai ceder, tão triste pela morte do pai, tão subitamente sozinha, mas a sua voz e o seu olhar dizem tudo. Há os que se apropriam do território, destruindo tudo à sua passagem, e há os que ficam a ver. Ela não vai ficar a ver.

Reparem na última imagem da mãe na janela a vê-la partir, com o namorado, duas figurinhas na noite chuvosa. O seu olhar parece mais assustado do que confiante. Quem afinal vai enfrentar a solidão e os fantasmas do passado e do presente é quem se baseia na linguagem do poder, na manipulação e na ganância.

 

 

 

 

 

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publicado às 21:26

Valores humanos fundamentais: a bondade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.12

É a segunda vez que It's a Wonderful Life é colocado aqui a navegar, e talvez seja o filme mais visto nesta época de boa vontade. Em vez de bondade, poderia ter escolhido o valor respeito pelo próximo, ou mesmo empatia, colocar-se no lugar do outro, ou até mesmo maturidade. Mas aqui o nosso herói vai mais longe, coloca os outros à sua frente, um dia será a sua vez. Porque a vida lhe vai mostrando que há sempre alguém que precisa de ser salvo, apoiado, valorizado. Talvez porque só ele, a sua consciência de uma maturidade precoce, consiga ver o que os outros não vêem. É como se o seu papel na comunidade fosse maior do que um projecto individual: uma boa profissão, uma casa confortável, uma família. É o que a maior parte dos jovens sonha para si. Perfeitamente compreensível.

 

Não será assim para George Bailey. Vai adiar o curso e as viagens pelo irmão mais novo, aquele que num dia da infância salvara de morrer afogado. E vai adiar novamente esse sonho porque terá de ser ele a continuar o projecto do pai: um banco local de pequenos empréstimos, sempre no limite da sua capacidade mas uma base fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. O papel de George Bailey tornou-se, pois, mais abrangente, maior do que ele próprio.

 

 

Em muitos aspectos fundamentais da vida, este filme é muito actual. As interacções humanas estão a descaracterizar-se e as bases de coesão social estão a perder-se. É esse o mundo de Potter, o homem mais rico da comunidade que coloca o lucro e o poder acima de todas as dimensões da vida. Hoje o mundo pertence cada vez mais aos Potter, disso não há dúvida nenhuma. E não é apenas o lucro e o poder que habitam os olhos manhosos desse homem, é o ódio e o desprezo pelos mais fracos e desamparados. Será ele a dizer ao nosso herói que nada vale, está falido, o seu sonho morreu, que valia mais morto do que vivo.

E é precisamente este o pedido desesperado de George Bailey: mais valia não ter nascido. Desta vez será um anjo a resposta ao seu desespero. E a neve para de cair, ele deixa de existir, e será o anjo a acompanhá-lo nessa outra dimensão em que ele não existe.

E é nessa diferença entre o mundo onde ele não existe e o mundo que ele habitou, que percebe que a sua vida teve um sentido, uma influência benéfica: as vidas que tocou e influenciou, de forma vital, determinante. Tudo tinha valido a pena, as decepções, as contrariedades, os obstáculos, as dificuldades. Tinha prevalecido a bondade, muito mais forte do que todos os Potter deste mundo.

 

Reparem sobretudo na diferença entre esses dois mundos: o mundo dominado pelos Potter e o mundo estruturado pela bondade.

É esta a mensagem que hoje retiro deste Capra, e de novo com James Stewart. Capra é o realizador que mais percebeu e interiorizou a época natalícia, a época dos homens de boa vontade.

Todas as cenas têm um significado muito forte. As minhas preferidas são as que se referem ao projecto de George Bailey, o Bailey Park, as habitações confortáveis a baixo custo, permitir a cada um uma vida digna.

 

 

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publicado às 20:13

Valores humanos fundamentais: a responsabilidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 23.12.12

Ligada à liberdade, vem a responsabilidade. Não há liberdade sem responsabilidade e as duas juntas são dois pilares da autonomia, assim como outros valores fundamentais, verdade, empatia, fraternidade, lealdade, que virão a seguir.

A responsabilidade de cada um por si próprio, pelo seu percurso, pela sua atitude, pela sua acção e interacção no mundo, a começar pelo mais próximo, a família, os amigos, o trabalho, a comunidade, o país.

 

A responsabilidade liga muitíssimo bem com a época natalícia: o presépio que idealizamos tem os pais à volta de um menino, a protegê-lo, tem a rodeá-lo os mais simples, os pastores, e os mais respeitados, os Reis Magos, mesmo que as estalagens lhes tenham fechado as portas. No presépio que idealizamos está a vaca e o burro, porque na tradição rural os animais domésticos co-habitam com os campesinos, para os aquecer (ver os contos de Miguel Torga).

 

Para pegar na responsabilidade, fui buscar um Robert Wise que já aqui referi, Execute Suite, a propósito do actor Fredric March, aqui na pele de um executivo ambicioso. Mas é a personagem de William Holden que destaco aqui hoje: a liderança responsável.

Já aqui trouxe William Holden várias vezes, e numa delas até prometi que seria o meu próximo herói, na série Os meus heróis, na qualidade do homem em quem se confia. Esta personagem, McDonald Walling, podia muito bem representar essa qualidade.

William Holden, na pele de um executivo que defende, não apenas os lucros dos accionistas, mas o prestígio da empresa, a qualidade do serviço prestado aos clientes, a sua confiança, porque é aí que está a preparação do futuro, a sua continuidade. O que propõe nesta reunião decisiva em que se irá nomear o novo director, é precisamente manter a vitalidade da empresa, uma empresa viva.

 

O importante a reter neste filme é que quanto mais elevada é a posição que alguém ocupa, quanto maior o seu poder e influência e o impacto das suas decisões, maior a responsabilidade. 

É isso que desejamos também neste Natal: que os responsáveis pelas vidas de muitos outros reflictam na sua enorme responsabilidade de defender o prestígio das suas organizações e instituições, porque o prestígio e a confiança são os pilares do funcinamento equilibrado e saudável de uma comunidade.

Aqui William Holden lembra que o sucesso e futuro da empresa depende da confiança dos clientes e do trabalho conjunto de todos os que nela trabalham. Só mobilizando todos os elementos se mantém a vitalidade de uma organização e se constrói o futuro. 

 

 

 

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publicado às 09:30

Valores humanos fundamentais: a liberdade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 15.12.12

Volto a este rio num dia de nevoeiro, real e metafórico. Sei falar de nevoeiros, conheço-os, já me vi metida na sua densidade perturbadora. Quem nasceu neste país e teve de interagir com a cultura do nevoeiro e com os que a abraçaram para daí ter vantagens, poder e visibilidade, mesmo atropelando tudo e todos, sabe até que ponto é difícil defender um valor fundamental, a liberdade de viver e trabalhar sem obstáculos.

Este rio vai dedicar-se a este valor e a outros, como a justiça e o equilíbrio entre direitos e deveres, como uma pessoa simples enfrenta as injustiças, como a verdade acaba por prevalecer, ou como os nevoeiros deste mundo se vão aclarar finalmente à vista de todos.

 

Para navegar esta corrente do rio dos valores humanos fundamentais, e esta é a época certa para falar deles, trago de novo Mr. Smith Goes to Washington.

Aqui vemos um único homem a enfrentar poderosos oponentes. Do seu lado tem apenas um ideal maior do que si próprio, alguns amigos leais, uma secretária experiente que sabe tudo o que há a saber sobre os obstáculos que vai enfrentar.

Aqui também vemos como funciona a linguagem do poder, o tal nevoeiro que persiste.

E finalmente vemos como a verdade e a justiça prevalecem, como tudo se aclara no fim, ainda que à custa de muita dedicação e persistência.

 

 

Mr. Smith Goes to Washington é um Frank Capra, não esquecer. Já navegam neste rio quatro Capras pelo menos, e todos dos anos 30. Frank Capra liga muito bem com o Natal e com os valores humanos fundamentais.

 

 

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publicado às 19:23

As décadas de Cinema a navegar neste rio...

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 08.08.10

 

Resolvi revisitar os filmes que aqui navegam, arrumando-os nas décadas respectivas. Para esse efeito, saltei um pormenor matemático que poucos valorizam (veja-se a passagem do milénio em que se festejou de 1999 para 2000, quando deveria ter sido apenas no ano seguinte, ups!) e que é este: uma década inicia-se no ano 1 e termina no final do ano 0, certo? Pois bem, para não criar nenhuma confusão, considerei os filmes que saíram exactamente em 1940 da década de 40 (ex.: Vinhas da Ira) e em 1950 da década de 50 (ex.: Tea for Two) e em 1960 da década de 60 (ex.: Wild River). Assim não há confusões.

 

Depois de contabilizados, cheguei à conclusão que a década mais representada neste rio é, afinal, aquela em que estamos (26 filmes a navegar) logo seguida da década de 50 (com 24). Até eu fiquei surpreendida...

É natural que aqui estejam mais filmes recentes, afinal foram filmes que aluguei no Clube Vídeo (entretanto extinto) ou que vi num dos TVCine ou no canal Hollywood.

De todos estes filmes, aqueles que melhor reflectem a nossa década actual são, a meu ver, Down in the Valley, Little Miss Sunshine, Saraband e War Inc.

 

O que me surpreendeu foi a quantidade de filmes dos anos 50 que aqui coloquei a navegar, quase todos eles obras-primas, em termos de linguagem do cinema, do cinema-arte. Com a atmosfera... essa atmosfera que é tão difícil captar...

Que dizer dessa atmosfera em O Dia em que a Terra Parou ou em All that Heaven Allows? Ou da força da natureza em Stromboli, Viaggo in Italia, River of no Return e Suddenly, Last Summer? Ou da sensualidade em Picnic, On the Waterfront ou Rear Window? Ou da poesia de The Long, Hot Summer, Morangos Silvestres, The Red Badge of Courage?

E ainda uma descoberta, The Hanging Tree, pouco conhecido, um exercício poético e belíssimo. E um dos filmes que já vi mais vezes, vá-se lá saber porquê, The Naked Spur. E o único Nicholas Ray, um muito branco e comovente On Dangerous Ground. Assim como o único Orson Welles, um brilhante e ousado Touch of Evil.

 

 

Outra surpresa: a década de 90 vem a seguir, com 20 filmes a navegar... De novo o factor Clube Vídeo também aqui pesou, assim como a televisão. Nenhum destes filmes se pode colocar no plano dos anteriores, esta é a minha perspectiva, mas há um ou outro, Ed Wood por exemplo, e The Remains of the Day, é consensual. Já The Postman e Waterworld, por exemplo, estou a ver que a escolha é polémica... Grand Canyon iniciou um filão de um olhar poético sobre a vida urbana, a sua violência, a sua incapacidade de comunicação. Na altura, surgiu como uma pedrada no charco, foi muito inovador.

 

A seguir, os anos 80. Com 15 filmes, todos eles magníficos, cada um no seu género. Foi uma década inspirada, de transição. Onírica e poética, depois do realismo brutal da década de 70. Mas esta é a minha visão muito pessoal.

A ficção científica, não reduzida à tecnologia, mas quase em parábolas poéticas, em E.T.e Blade Runner. As adaptações literárias perfeitas, em Stand by me, A festa de Babette, O Império do Sol, Cannery Row, A passage to India e A Room with a View.

 

Depois, com 11 filmes, os anos 40, a década preferida de um amável Viajante que me tem desafiado a trazer aqui mais filmes. Faltam aqui muitos filmes dos anos 40, sem dúvida alguma...

Dois William Wyler e ambos perfeitos: The Little Foxes e The Best Years of Our Lives. Um John Ford, As Vinhas da Ira. Um David Lean, Breaf Encounter. Um Emeric Pressburger-Michael Powell, A Canterbury Tale. Um Capra, It's a Wonderful Life. E um Mankiewickz, The Ghost and Mrs. Muir. Destaco aqui também High Sierra, outra magnífica parábola (e já viram que eu adoro parábolas... além disso, é Humphrey Bogart e Ida Lupino e a despedida mais triste do cinema, a meu ver... naquela paragem de autocarro...)

 

Os anos 60 vêm logo logo a seguir com 9 filmes, e confesso!, a seguir à década de 50 é aquela com que mais me identifico... Talvez porque habitei esse tempo na minha infância. Conheci personagens assim. Assim como essa tranquilidade, entretanto perdida nas décadas seguintes. Claro que também havia constrangimentos de outra natureza, preconceitos vários, muros e fronteiras que tinham de se ultrapassar, mas a forma como isso foi conseguido destruiu o melhor dessas décadas, a meu ver, e já não estou a falar de cinema... Foi como um bulldozer a terraplanar silêncios, mãos dadas na obscuridade, cartas poéticas, tardes de verão à sombra de uma árvore, rios cintilantes à espera de um mergulho, olhares francos e ternos, esse tipo de coisas que eram essenciais... Bem, já estou a divagar...

Todos os filmes que aqui navegam trazem essa marca poética e essa atmosfera de que falei a propósito dos filmes dos anos 50... Wild River, magnífica parábola dos tempos actuais, do momento crítico, quando a natureza indomável se vê limitada ou condicionada pelo progresso. O desencanto, sempre presente: Rachel, Rachel, Baby the Rain must Fall... O preconceito: Guess who's coming to dinner e To Kill a Mockingbird.

 

Depois, vem a década de 70, com 7 filmes. Não foi uma década muito interessante para mim, em termos de Cinema. Foi no tempo das idas ao Cinema com mais frequência e o que vi soou-me a agressivo e brutal e quando não era agressivo ou brutal, era decadente e inconsequente. Essa tendência já se sentia nos filmes do final dos anos 60, mais sombrios e desencantados. Nos anos 80, como já disse aqui, tudo começou a melhorar, pelo menos na minha perspectiva pessoal.

Dois Spielberg, um Woody Allen e um Stanley Kubrick. Nada mal.

 

E, finalmente, a década de 30, com 5 filmes. Outra surpresa! Uma das décadas mais ricas e criativas, em todos os géneros, do drama à comédia, até na ficção científica, e como é possível que só tenha trazido 5 filmes, e quase todos do Capra? Tenho de tratar de procurar na memória aqueles filmes magníficos que ainda vi na televisão.

Todos eles obras-primas, mais uma vez. Mr. Smith Goes to Washington, It Happened One Night e Lost Horizon, do Capra. A Floresta Petrificada, outra magnífica parábola. E um palco para um quotidiano urbano em local de trabalho: The Shop Around The Corner.

 

 

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publicado às 16:25


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